Liga da Justiça de Zack Snyder | Análise crítica

2 semanas atrás
72

Na última quinta-feira (18) o tão esperado Snyder Cut finalmente deu as caras e viu a luz do dia. Para quem não sabe, Zack Snyder foi o diretor original de Liga da Justiça, porém após uma tragédia pessoal foi forçado a abandonar o projeto. Ele foi então substituído por Joss Whedon, que regravou várias cenas e adaptou a narrativa para os padrões da Warner Bros.

Primeiro é importante frisar que o filme de Whedon foi um completo fiasco. Com personagens extremamente mal trabalhados e efeitos gráficos feitos às pressas, o filme acabou ganhando uma péssima reputação entre os fãs. A produção, que deveria se equiparar à Vingadores em quesito de qualidade, é considerada uma piada nos dias de hoje. Mas isso nunca foi culpa exclusivamente de Whedon. O diretor foi contratado de última hora após a saída de Snyder. Ele basicamente teve que fazer um “remendo” enorme numa trama já estabelecida para que ficasse mais leve e palatável para um filme de super-heróis. O resultado, como eu disse, foi catastrófico. Agora, com o lançamento da versão original e a adição de novas cenas, Snyder pôde mostrar realmente para que veio. Mas é mesmo um filme incrível, revolucionário, digno de Oscar e que vai mudar completamente os rumos da DC Comics nos cinemas?

Bom…não. Mas Zack Snyder não estava exagerando quando prometeu algo grandioso.

Aqui vemos os dias e semanas que se passaram logo após a morte do Superman, o maior herói da Terra, nas mãos do vilão Apocalipse. Com a suspeita de uma nova invasão alienígena que promete aniquilar o planeta, Bruce Wayne decide reunir uma equipe de pessoas com super poderes para tentar frear esta ameaça. Obviamente que na falta do Homem de Aço, lutas com seres extraterrenos superpoderosos se tornam muito mais difíceis. Vemos uma apresentação bastante justa de cada um dos personagens que é recrutado. O Flash, tão criticado pelo filme de 2017, me surpreendeu muito. Aqui ele recebe um desenvolvimento muito mais aprofundado e podemos ver claramente o quão poderoso ele é. O ator mostra que consegue não só ser o principal alívio cômico, como também carregar uma boa carga dramática. Algumas das melhores cenas do filme inclusive são centradas nele.

Já o Aquaman não tem muita coisa de novo. Ele mantém seu arquétipo do brutamontes bêbado e brincalhão, porém com um desenvolvimento um pouco mais aprofundado, já que tem mais tempo de tela.

Mulher Maravilha é sem dúvida também um dos pontos altos. Após ficarmos com desgosto da trama da personagem após o desastroso Mulher Maravilha 1984, temos aqui uma surpresa. A personagem entrega excelentes cenas de ação que extraem muito bem aquilo que a Mulher Maravilha realmente é: uma guerreira amazona que massacra o inimigo custe o que custar. Sinceramente, confesso que terminei o filme muito mais feliz ao saber que Snyder, diferentemente de Patt Jenkins, entende muito bem a personagem e conseguiu extrair o melhor dela.

Quanto ao Ciborg também não há do que reclamar. Ao assistir a versão da Liga de 2017, senti que esse era de longe o pior personagem do filme. Mal desenvolvido, com CGI mal feito e a atuação também não convencia. Já na versão de Snyder ele recebe uma atenção visivelmente maior, com todo um arco de história bem trabalhado envolvendo sua família e o fato de ter que conviver na sociedade sendo metade humano, metade máquina. A dor do personagem é muito bem representada e a presença maior do pai dele no filme faz com que tudo tenha mais sentido. Não posso deixar de citar também os poderes dele. Victor Stone, uma mistura entre homem e máquina, tem a capacidade de literalmente mudar o mundo para o que ele quiser, uma vez que tem o controle de todo o meio digital, podendo controlar os mercados, instituições, internet e etc. Isso é fantástico na forma como é mostrado no filme, dando uma  carga ainda maior ao personagem.

Infelizmente, o filme deixa muito a desejar no que se trata ao Batman. Aqui Ben Affleck não só está no mesmo patamar fajuto e desinteressado de atuação do filme de 2017, como também não recebe cenas que realmente o valorizem como ator e personagem. Ele é o líder da Liga neste momento, com a missão de unir os heróis contra a possível destruição total do planeta. Mas sequer tem o desenvolvimento necessário. Apesar de ter muito tempo de tela, ele é constantemente ofuscado pelos outros personagens que tem um arco de história muito melhor. É triste ver um personagem que nas hqs e animações é um herói sombrio e que, mesmo sem poderes, consegue meter medo em qualquer um, tendo aqui um desenvolvimento tão pífio com raras exceções. Vale ressaltar que não acho o Ben Affleck especificamente um Batman ruim. Ele inclusive é um dos meus favoritos. Mas se você compara a atuação dele, toda a carga dramática, imponência e cenas de ação fantásticas de Batman Vs Superman com qualquer um dos filmes da Liga da Justiça, a diferença é gritante.

Superman aparece só na segunda metade do filme, mas tem uma boa presença. Desde a parte de sua ressurreição até o momento da luta final, ele consegue segurar a barra com uma atuação convincente. Seu arco é interessante, com pequenos vislumbres de como ele pode usar seus poderes para o mal, caso se unisse ao Darkseid.

E por falar em Darkseid, sua aparição foi um tanto diferente das minhas expectativas. Ele é claramente o ser mais poderoso do filme e só por isso vemos que ele não está para brincadeira. A cena dele na guerra contra os antigos heróis da Terra, na primeira vez que ele tentou invadir e foi derrotado, são de tirar o fôlego. Mesmo que essa narrativa iniciada por Zack Snyder não tenha mais continuações, seria ótimo ver mais sobre Darkseid em futuros filmes.

Mas na prática, o vilão mesmo do filme é o Lobo da Estepe. Na minha opinião ele foi o melhor personagem do filme. A diferença entre seu personagem no filme de 2017 e aqui é também muito grande. Enquanto lá seu visual era muito pobre, seu arco de história quase nulo e se mostrava apenas um inimigo genérico de um filme genérico de super heróis, aqui ele dá as caras como você nunca viu antes. Para começar pelo seu visual, que é absolutamente incrível, consegue passar com maestria toda a sua imponência. A qualidade de seu personagem também se deve a atuação e dublagem dele, que combinou perfeitamente. Como servo de Darkseid, seu arco de história é extremamente bem feito e podemos ver o peso de cada ação dele, assim como ele se torna “humano” quando é colocado na posição de submissão diante de seu mestre. Foi de longe a melhor coisa do filme.

As cenas de ação, que no filme de 2017 deixaram a desejar, têm aqui sua devida atenção. Logo no início do filme, quando o Lobo da Estepe está em busca da caixa materna sob posse das amazonas, a cena de luta em que as guerreiras tentam resistir ao vilão é fantástica. O diretor prova que consegue extrair o melhor dessa tribo milenar de guerreadoras implacáveis no combate a um ser muito mais poderoso que elas.

Quando foi anunciado que o filme teria 4 horas de duração, uma grande preocupação que tive é a possibilidade de inserirem tanta informação que, no fim, as peças não se encaixam adequadamente como uma história deve ser. Fui surpreendido. O diretor tem um timing razoável que consegue manter a fluidez durante todo o filme. Todos os arcos que foram iniciados na história foram fechados ao final do filme, a maioria maneira adequada. Como é uma produção blockbuster de super heróis, é mais do que óbvia a ligação com futuros filmes e tramas. O próprio Darkseid é mais pra você sentir o gostinho do que pode vir mais pra frente, do que realmente uma coisa desse filme. O lance clássico deste tipo de filme, em que há sempre uma preparação para futuros filmes, está presente com força aqui. Apesar de tudo isso, creio que poderiam ser descartados pelo menos 30 minutos do filme. Para contar a história que Snyder queria contar, cerca de 3 horas ou 3 horas e meia seriam suficientes.

Quanto ao epílogo, não achei realmente necessário. É óbvio que a cena é muito boa. Ela aprofunda no pesadelo que já tinha sido mostrado antes, dos personagens remanescentes da liga e alguns vilões se unindo numa espécie de resistência contra a dominação do Darkseid na Terra, em que Superman é seu principal aliado. A clara referência aos jogos da saga Injustice consegue deixar curiosidade sobre o que a franquia Liga da Justiça poderia explorar caso a versão de Snyder tivesse sido levada a sério. É ótimo ver o Coringa, já com uma aparência muito diferente de em Esquadrão Suicida, provocando o Batman em maior estilo. Essa cena inclusive é um ponto alto de Ben Affleck no filme. A citação à morte do Robin acerta em cheio no ponto fraco do Bruce Wayne, que ainda se sente culpado por não ter conseguido salva-lo. Apesar disso creio que o epílogo seja, acima de tudo, uma alfinetada de Zack Snyder contra a Warner para mostrar o que a franquia poderia ter se tornado caso a empresa não tivesse descartado ele em 2017.

Não posso negar que o filme é um grande fan service, é Snyder finalmente entregando aos fãs aquilo que foi especulado e teorizado em todos os anos em que a #releasethesnydercut esteve em voga. Além de dezenas de easter eggs para os fãs mais sagazes e referências ao Universo DC, tivemos uma breve participação do Caçador de Marte que, particularmente, me deixou feliz. Mas talvez por ser justamente um fan service, muitas pessoas que não estão familiarizadas com os personagens e a história vão assistir vários momentos sem entender de verdade qual é a ideia por trás. O filme sequer dá o trabalho de explicar e deixar as coisas mais claras para alguém mais desavisado ou que simplesmente assiste filmes de super-heróis de maneira casual.

Este definitivamente é um filme feito de fã para fã. É um grande épico de seres extraordinários capazes de fazer coisas extraordinárias, e para quem já tem alguma familiaridade o filme é um prato cheio. Eu, particularmente, só tenho a agradecer.

Saiba mais sobre Snyder Cut

%d blogueiros gostam disto: